"Quero trabalhar com Safety." Essa frase aparece cada vez mais entre pilotos, mecânicos e estudantes. Só que Safety não é um cargo único, nem um curso que você faz num fim de semana e sai com o crachá.
É um campo com regras próprias e algumas portas que, honestamente, não estão abertas para todo mundo. Este post é um mapa: o que é a área, quem trabalha nela e quais cursos existem hoje (conferidos em fontes oficiais em outubro de 2026).
Bora?
Primeiro: o que é "Safety" na aviação
Em português, segurança operacional: prevenir acidentes e incidentes gerenciando os riscos da operação. Não confunda com security (proteção contra atos ilícitos), que é outra área.
A base internacional é o Anexo 19 da ICAO (Safety Management), cuja 2ª edição foi publicada em 2016. A Emenda 2 foi adotada em junho de 2025 e passa a ser aplicável em 26 de novembro de 2026. O guia de implementação é o Doc 9859, o Safety Management Manual, hoje na 4ª edição.
O Anexo 19 pede que cada Estado tenha um Programa de Segurança Operacional (SSP, na sigla em inglês) e que exija dos provedores de serviços de aviação (empresas aéreas, organizações de manutenção, aeródromos, controle de tráfego, entre outros) um Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional, o SMS, que no Brasil chamamos de SGSO.
Onde a ANAC exige SGSO
- Empresas aéreas do RBAC 121: Subparte BB, seção 121.1221.
- Operadores do RBAC 135: seção 135.29 (a ANAC pode autorizar desvios quando o porte e a complexidade da operação justificarem).
- Organizações de manutenção do RBAC 145: seção 145.214-I.
Pelo RBAC 121, o SGSO tem 4 componentes (política e objetivos, gerenciamento de riscos, garantia e promoção da segurança operacional) e deve ser compatível com o porte e a complexidade da operação. Cada componente gera trabalho, e é aí que estão as funções.
SIPAER não é SGSO
Aqui mora a confusão mais comum. O SIPAER (Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) é o sistema nacional previsto no Código Brasileiro de Aeronáutica, com o CENIPA como órgão central e autoridade de investigação (falamos disso em CENIPA e a Nota 100 da ICAO). Pelo Decreto 9.540/2018, empresas que operam ou mantêm aeronaves também são "Elos-SIPAER".
O SGSO é o sistema de gestão de cada provedor de aviação civil, exigido pela ANAC. Os dois conversam: os manuais exigidos pelos RBAC 121 e 135 precisam ter procedimentos de notificação de acidentes e incidentes conforme a legislação do SIPAER. Mas não são a mesma coisa: um curso do CENIPA não "implanta" SGSO, e trabalhar no SGSO de uma empresa não faz de você investigador do SIPAER.
Funções típicas na área
Diretor ou Gerente de Segurança Operacional (121 e 135)
O RBAC 119 exige essa posição nas empresas que operam segundo os RBAC 121 e 135. Detalhe que pouca gente conhece: para o Diretor de Operações, o regulamento fixa licença e experiência mínimas (no 121, Piloto de Linha Aérea; no 135, PLA ou Piloto Comercial, conforme a licença exigida dos comandantes). Já para o de Segurança Operacional, ele pede uma pessoa que atenda aos critérios de competência, experiência e treinamento estabelecidos pela própria empresa.
Não é "vale tudo": o RBAC 119 exige pessoal de direção qualificado por treinamento, experiência e competência, e a ANAC pode recusar indicações em casos previstos. Mas, para o DSO (121/135) e para o Gestor do SGSO (145), não existe uma licença específica de Safety emitida pela ANAC.
Cabe a ele coordenar o SGSO, facilitar a análise de riscos, monitorar os controles e assessorar o Gestor Responsável.
Gestor do SGSO (organizações de manutenção)
No RBAC 145, o Gestor do SGSO é designado pelo Gestor Responsável e precisa ter acesso direto a ele, competência, experiência e treinamento definidos pela organização e acesso aos dados de segurança operacional. O regulamento permite que Gestor Responsável, Gestor do SGSO e Responsável Técnico sejam a mesma pessoa.
Analista de segurança operacional
O "motor" do dia a dia: trata reportes, ajuda a identificar perigos, avalia riscos, acompanha indicadores e escreve análises. É, tipicamente, uma porta de entrada frequente, mas o título exato muda de empresa para empresa.
Análise de dados de voo (FDM/FOQA)
Os RBAC 121 e 135 exigem, para aviões com peso máximo de decolagem acima de 27.000 kg, um programa de acompanhamento e análise de dados de voo dentro do SGSO. No RBAC 121, a partir de 1º de janeiro de 2027, a exigência se estende a aviões acima de 15.000 kg e com mais de 19 assentos, conforme a data do certificado de aeronavegabilidade e o equipamento instalado. Os dois regulamentos dizem que o programa não tem finalidade punitiva e deve proteger as fontes dos dados. Nicho para quem gosta de dados e entende operação.
Facilitador de CRM e MRM
O RBAC 121 exige treinamento de CRM para tripulantes, comissários e despachantes, e o RBAC 135 exige um programa aprovado de CRM. Alguém precisa conduzir esse treinamento, e quem leu nosso post sobre CRM sabe que facilitar não é dar palestra: é conduzir discussão sobre comunicação, liderança e decisão. No hangar, o equivalente é o MRM, muito ligado aos fatores humanos da manutenção.
Auditoria e investigação interna
O componente "garantia" pede auditorias internas e investigação de eventos dentro da empresa. Investigação oficial de acidente é outra história: cabe ao SIPAER, conduzida pela autoridade de investigação (o CENIPA e as organizações subordinadas a ele). Uma ponte: no RBAC 121, a investigação de acidentes e incidentes dentro do SGSO deve usar pessoal qualificado pelo SIPAER ou com habilitação equivalente reconhecida pela ANAC.
De onde vem quem trabalha com Safety
Não há caminho único, mas, em geral:
- Pilotos e comissários: costumam trazer a vivência de cabine e de CRM.
- Mecânicos: costumam trazer a visão do hangar e do erro de manutenção. O Dirty Dozen é praticamente o primeiro idioma de Safety na manutenção.
- Despachantes operacionais: em geral conhecem o controle operacional por dentro.
- Engenheiros: costumam ir para análise de risco, confiabilidade e dados.
E sem formação aeronáutica? Dá para contribuir em dados, qualidade e gestão. Mas credibilidade em Safety vem muito de entender a operação: quem nunca viveu um hangar ou uma cabine precisa estudar e ouvir muito quem viveu. Começando do zero na manutenção? Leia Do Zero ao Hangar.
Formação: o que existe hoje (e para quem)
Cursos do CENIPA
Conferi o programa de 2026 no portal do CENIPA:
- CI-SIPAER (Introdução ao SIPAER): EaD, autoinstrucional, 20 horas, com 4 semanas a partir da inscrição. Requisito: acesso à internet. Inscrições até 13/11/2026. Apresenta o SIPAER e, quando feito a partir de 2025, é pré-requisito para nove cursos do CENIPA, entre eles CGPAA, CIAA e CPAA-MA.
- CF-SMS (Familiarização ao SMS): EaD, 20 horas. Para civis, o requisito é ser funcionário de instituição ligada à atividade aérea. Inscrições até 30/10/2026.
- CGPAA (Gestão da Prevenção): híbrido, 60 horas, para a gestão da prevenção no âmbito do SIPAER. Civis precisam de CI-SIPAER, vínculo com instituição ligada à atividade aérea e ensino médio completo. Inscrições de 2026 encerradas.
- CPAA-MA (Prevenção, aspecto de manutenção): híbrido, 95 horas, com fatores humanos e fundamentos de MRM. Aceita civis de instituição ligada à manutenção, com licença válida de mecânico, CI-SIPAER e indicação da instituição. É a porta mais concreta para mecânicos civis. Inscrições de 2026 encerradas.
A parte honesta: em 2026, CF-MRM (para militares da manutenção) e CIAA (investigação) aparecem como "não aplicável" para civis, e o CF-CRM aceita civis apenas de instituições da Segurança Pública ligadas à atividade aérea, com curso de CRM já concluído. Os requisitos mudam; confira a cada ano.
E um aviso: nenhum curso do CENIPA substitui os critérios de competência, experiência e treinamento que a empresa define para o seu DSO ou Gestor do SGSO.
Cursos da ICAO
A ICAO oferece o Fundamentals of Safety Management, curso online de 15 horas, já atualizado para a Emenda 2 do Anexo 19, pago em dólar. Ele é pré-requisito do Safety Management for Practitioners (SMxP), curso com instrutor, em inglês ou espanhol, ministrado pela ICAO e por centros parceiros, focado em perigos, risco, gestão da mudança e monitoramento de desempenho.
Há também cursos de SMS de escolas privadas: confira carga horária, quem ministra e aderência ao Anexo 19 e ao RBAC do seu setor. Para pós-graduação, verifique o credenciamento no e-MEC.
Competências que pesam mais que certificado
- Cultura justa: saber separar erro honesto de violação deliberada.
- Reporte voluntário: usar e tratar reportes sem caça às bruxas.
- Análise de risco: probabilidade, severidade, barreiras e mitigação.
- Fatores humanos: o ponto de partida de tudo; O Elo Mais Frágil do Céu e TEM na Prática são boas portas de entrada.
- Escrita: um relatório claro vale mais que dez slides.
- Comunicação: falar com diretor e com mecânico de linha com o mesmo respeito.
Mini-roteiro: seus primeiros passos

- Comece pelo SGSO. Estude o Anexo 19 e o Doc 9859, leia a regra do seu setor (RBAC 121 Subparte BB, 135.29 ou 145.214-I) e peça para conhecer o manual de SGSO da sua organização.
- Monte a base estruturada: o Fundamentals of Safety Management da ICAO (online, pago) cobre os fundamentos de SSP e SMS.
- Faça a ponte com o SIPAER: o CI-SIPAER apresenta o sistema coordenado pelo Estado e é pré-requisito para outros cursos do CENIPA. Complementa, mas não prepara para o SGSO da empresa.
- Reporte. Quem quer trabalhar com Safety começa usando os reportes.
- Ofereça-se para apoiar análises, auditorias internas ou campanhas de promoção.
- Treine a escrita: resuma um relatório final do CENIPA em uma página.
- Escolha uma trilha (gestão, dados, CRM/MRM, auditoria) e aprofunde.
Conclusão
Safety não é um título: é um jeito de olhar a operação. As portas mais acessíveis estão no SGSO da sua própria organização, no estudo de base e no reporte; as especializações vêm com o tempo.
E você: está tentando entrar na área ou já trabalha com Safety? Qual foi a porta que funcionou para você?
Referências
- ICAO. Safety Management (página oficial; Emenda 2 ao Anexo 19 e Doc 9859, 4ª ed.): https://www.icao.int/safety/SafetyManagement/Pages/default.aspx
- ICAO. Standards and Recommended Practices (SARPs), Anexo 19: https://www.icao.int/safety-management/standards-and-recommended-practices-sarps
- ICAO Store. Fundamentals of Safety Management: https://store.icao.int/en/fundamentals-of-safety-management
- ICAO Training. Safety Management for Practitioners (SMxP): https://igat.icao.int/ated/trainingcatalogue/Course/677
- Brasil. Lei nº 7.565/1986 (Código Brasileiro de Aeronáutica), arts. 86 a 88-H: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7565compilado.htm
- Brasil. Decreto nº 9.540/2018 (SIPAER): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/d9540.htm
- ANAC. RBAC 119 (Emenda 10): https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/rbha-e-rbac/rbac/rbac-119
- ANAC. RBAC 121 (Emenda 25, em vigor desde 19/06/2026), 121.135, 121.404 e Subparte BB: https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/rbha-e-rbac/rbac/rbac-121
- ANAC. RBAC 135 (Emenda 15), 135.23, 135.29 e 135.330: https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/rbha-e-rbac/rbac/rbac-135
- ANAC. RBAC 145 (Emenda 09), 145.214-I e Apêndice B-I: https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/rbha-e-rbac/rbac/rbac-145
- CENIPA. Programa de capacitação 2026 (CENIPA Virtual): https://cenipavirtual.fab.mil.br/autoinstrucional/course/view.php?id=11
- Foto de capa: "Airhub Aviation hangar - SQQ, Siauliai, Lithuania", de Airhub Aviation, via Wikimedia Commons (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Airhub_Aviation_hangar_-_SQQ,_Siauliai,_Lithuania.jpg), licenciada sob CC BY 4.0 (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/). Imagem recortada e redimensionada.
