Tem semana em que a aviação manda notícia boa e notícia ruim no mesmo pacote. Esta foi uma delas.
De um lado, a Embraer acaba de fechar o melhor terceiro trimestre da sua história. Do outro, o combustível dos aviões ficou mais caro de novo — e quem sente isso no fim da linha é o passageiro. E, lá nos Estados Unidos, a Boeing respirou aliviada depois de passar semanas com uma greve de engenheiros pairando sobre a fábrica.
Bora entender cada uma — e, principalmente, por que elas importam pra quem vive (ou sonha viver) de aviação.
1. 🇧🇷 Embraer entrega 66 aeronaves e tem o melhor 3º trimestre da história
Nesta sexta-feira (2), a Embraer divulgou seus números de entregas de julho a setembro: 66 aeronaves. É o melhor resultado para um terceiro trimestre em toda a história da empresa — 6% acima do mesmo período de 2025 e 2% acima do trimestre anterior.

O que saiu da fábrica
| Segmento | Entregas no 3T26 | Destaques |
|---|---|---|
| Aviação Executiva | 41 | Jatos das famílias Phenom e Praetor |
| Aviação Comercial | 22 | 11 E175 + 11 da família E2 |
| Defesa & Segurança | 3 | 1 KC-390 Millennium + 2 A-29 Super Tucano |
Repare num detalhe curioso da aviação comercial: empate exato entre o E175 e a família E2. O E175 é o "velho de guerra" que segue vendendo muito nos EUA, porque se encaixa nas regras de contrato de pilotos das companhias regionais americanas (as chamadas scope clauses, que limitam o tamanho e o peso dos jatos que as regionais podem voar). Já o E2 é a nova geração, mais econômica, que vem ganhando espaço no resto do mundo.
Recorde… mas o mercado queria mais
Nem tudo foi festa. Os analistas esperavam um pouco mais: o consenso apontava cerca de 23 jatos comerciais e 45 executivos, e a Embraer entregou 22 e 41. Por isso, bancos como o Itaú BBA classificaram o resultado como "levemente negativo", enquanto o Santander viu algo "moderadamente positivo".
O ponto que mais chamou atenção, porém, foi outro: a Embraer já cumpriu cerca de 70% do ponto médio da sua meta anual em nove meses. Nos últimos quatro anos, a média para esse período era de 60%.
💡 Por que isso importa? Historicamente, fabricantes de aviões concentram entregas no fim do ano — o famoso "dezembro maluco". Entregar de forma mais distribuída significa produção mais estável, menos correria no hangar e menos risco de não bater a meta.
A meta para 2026 segue mantida: 80 a 85 jatos comerciais e 160 a 170 executivos.
Para quem acompanha o blog, é impossível não fazer a ligação: a mesma empresa que começou com o Bandeirante hoje costuma ser apontada como a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo — e segue batendo recordes.
2. ⛽ Querosene de aviação sobe 11,8% e o litro passa de R$ 6
A notícia ruim veio no dia 1º de outubro. A Petrobras anunciou reajuste de 11,8% no querosene de aviação (QAV) vendido às distribuidoras — um aumento de R$ 0,66 por litro em relação ao mês anterior. Com isso, o litro voltou a passar dos R$ 6, chegando a cerca de R$ 6,38, segundo a CNN Brasil.
Por que subiu de novo?
A justificativa oficial da Petrobras é a alta das cotações internacionais do QAV, provocada pelo agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio. A empresa reajusta o preço todo mês por uma fórmula prevista em contrato, que funciona como um "amortecedor": o aumento aqui chega mais suave do que lá fora, mas chega.
E não é o primeiro do ano. Em 2026, seis dos dez meses tiveram reajuste para cima.
O tamanho do problema para as companhias aéreas
Combustível sempre foi o maior custo de uma companhia aérea. Mas o peso disso mudou bastante:
- ✈️ O combustível passou a representar cerca de 46% dos custos operacionais das aéreas brasileiras — antes eram 33%.
- 💸 Segundo a Abear (associação das companhias aéreas), as empresas já gastaram bilhões de reais a mais do que tinham projetado com combustível desde o início do conflito.
- 🎟️ A tarifa aérea média no Brasil subiu 10,4% em agosto em relação a julho, de R$ 703,47 para R$ 776,87 por trecho.
⚠️ Tradução prática: quando quase metade do custo de um voo é combustível, não existe mágica. Ou a passagem sobe, ou a companhia corta rotas e frequências menos rentáveis — normalmente as regionais, que justamente conectam o interior do país.
A Petrobras garante que não há risco de desabastecimento: os volumes pedidos pelas distribuidoras para outubro estão confirmados. O problema não é falta de combustível. É o preço.
A gente já tinha falado do primeiro capítulo dessa novela na Notícias da Semana #3 — e, pelo visto, ela ainda está longe do último episódio.
3. 🇺🇸 Boeing escapa de greve: 17 mil engenheiros aprovam novo contrato
Lembra que na Notícias da Semana #4 a Boeing estava com dificuldade para estabilizar a produção do 737 MAX? Pois a última coisa que ela precisava agora era de uma greve. E esse risco era real.
![]()
A história em três atos
- 21 de agosto: os cerca de 17 mil engenheiros e técnicos representados pelo sindicato SPEEA rejeitaram a primeira proposta da Boeing e autorizaram uma greve.
- 11 de setembro: a empresa voltou à mesa com uma oferta bem mais generosa.
- 1º de outubro: fim da votação — contrato aprovado pelas duas unidades (68% na unidade de engenheiros e 54% na de técnicos), a poucos dias do vencimento do acordo antigo, em 6 de outubro.
O que mudou na proposta
| Item | Primeira proposta (rejeitada) | Proposta aprovada |
|---|---|---|
| Aumento imediato | 3% | 10% (a partir de 2/out) |
| Aumento extra | — | +4% em março/2027 |
| Ganho em 4 anos | ~29,4% | ~36,3% (mínimo garantido de 28,7%) |
| Duração | 4 anos | 4 anos |
Pelas contas do próprio sindicato, citadas pela Leeham News, o salário médio de um engenheiro representado pela SPEEA deve subir de cerca de US$ 152 mil para US$ 208 mil por ano.
Por que isso era tão sério?
Diferente da greve de 2024 dos operários de produção (sindicato IAM 751) — que praticamente parou as linhas de montagem da região de Seattle por semanas —, uma greve de engenheiros atinge o "cérebro" da operação. O próprio CEO da Boeing, Kelly Ortberg, avisou que o programa de certificação do 777X pararia até os engenheiros voltarem, com efeito em cascata na produção do 737 MAX.
🔧 Olhar de hangar: na prática, quem libera uma modificação, aprova um reparo fora do manual ou responde a uma dúvida técnica da linha de produção é a engenharia. Sem ela, o avião até pode estar fisicamente pronto — mas ninguém assina embaixo. E, na aviação, avião sem assinatura não voa.
O fio que une as três notícias
À primeira vista, são histórias soltas. Mas olhe de perto:
- A Embraer mostra que produção estável e previsível vale tanto quanto recorde.
- O QAV lembra que a aviação é extremamente sensível a custos que ela não controla.
- A Boeing prova que gente qualificada — engenheiros, técnicos, mecânicos — é o ativo mais difícil de substituir numa indústria tão regulada.
No fim das contas, avião voa com combustível, com fábrica funcionando e, acima de tudo, com pessoas.
E você: acha que a alta do combustível vai fazer as companhias cortarem rotas regionais no Brasil já no início de 2027? Ou o setor ainda tem fôlego para segurar? Deixa sua opinião nos comentários.
📩 Quer receber o resumo da semana direto no seu e-mail? Assine a newsletter "O Check-list da Semana" e não perca nenhuma edição.
Fontes
- CNN Brasil — Embraer entrega 66 aeronaves no 3º tri, alta de 6% sobre ano anterior (02/10/2026)
- InfoMoney — Embraer (EMBJ3) bate recorde, mas não entrega tudo o que os bancos esperavam (02/10/2026)
- O Povo / Estadão Conteúdo — Petrobras aumenta o preço do querosene de aviação em 11,8% (01/10/2026)
- CNN Brasil (blog Jenifer Ribeiro) — Com nova alta, combustível da aviação passa de R$ 6 por litro (02/10/2026)
- Leeham News — Boeing Avoids Strike as SPEEA Engineers and Technicians Approve New Contracts (01/10/2026)
- AeroCorner — Boeing and Its Engineers Reach a Second Tentative Deal, This Time With a 10% Raise Up Front (09/2026)
- Imagens: Deni Williams (capa, CC BY 2.0) e SounderBruce (CC BY-SA 4.0) — Wikimedia Commons