Sexta-feira é dia de parar, respirar e olhar pra trás. E essa semana teve gente reclamando do preço do combustível, duas gigantes brigando por décimo de posição no ranking de entregas, e um órgão regulador tentando decidir, ao vivo, como o Brasil vai voar mais limpo daqui pra frente.
Separei as três notícias que mais mexeram com o mercado aeronáutico nos últimos dias — uma nacional, uma internacional, e uma que é as duas coisas ao mesmo tempo. Vamos direto ao ponto.
⛽ 1. O Litro do QAV Já Subiu 53% Só Em 2026
Começando pelo bolso — o de quem opera avião e, no fim das contas, o do passageiro também.
No dia 1º de setembro, a Petrobras anunciou mais um reajuste no preço médio do querosene de aviação (QAV): alta de 13,9%, equivalente a R$ 0,68 a mais por litro, com vigência a partir de 1º de outubro. Sozinho, esse número já assusta. Mas o dado que realmente importa é o acumulado: 53,3% de alta desde dezembro de 2025, um salto de R$ 1,94 por litro em menos de nove meses.
⚠️ ATENÇÃO A Petrobras atribui o movimento à escalada nas cotações internacionais do combustível, puxada por tensões geopolíticas no Oriente Médio. Segundo a estatal, a fórmula de precificação brasileira funciona como um "amortecedor", suavizando reajustes que no mercado internacional teriam sido ainda mais bruscos.
Pra tentar segurar o impacto no caixa das distribuidoras, a Petrobras criou um programa de parcelamento em três vezes, sem exigência de garantias adicionais — e garantiu que os volumes de setembro solicitados pelas companhias já estão assegurados.
Na prática, pra quem está no chão da manutenção ou da operação, o recado é simples: combustível segue sendo a linha mais volátil do orçamento de qualquer companhia aérea, e reajustes desse tamanho tendem a aparecer, cedo ou tarde, no preço da passagem.
Combustível é hoje o item mais sensível e mais volátil no orçamento de qualquer companhia aérea.
✈️ 2. Airbus x Boeing: Quem Está Ganhando a Corrida de Entregas em 2026?
Trocando de continente (e de problema): agosto fechou com números que valem um resumo rápido do duelo mais clássico da aviação comercial.
A Airbus entregou 57 aeronaves em agosto, somando 475 jatos no acumulado do ano. A fabricante europeia mantém a meta de cerca de 870 entregas em 2026 — o que agora exige um ritmo de praticamente 100 aviões por mês nos quatro meses finais do ano, depois de um problema pontual de produção: durante uma inspeção pré-entrega, uma ferramenta foi encontrada esquecida dentro do estabilizador horizontal da cauda de uma aeronave, levando a fabricante a inspecionar toda a linha em produção e resultando em zero entregas em junho e julho. A família A320 segue como a espinha dorsal da produção (53 das 57 entregas de agosto foram monocorredor, lideradas por 26 A321neo), mas o acumulado do ano ainda está abaixo do mesmo período de 2025.
Do outro lado, a Boeing entregou 51 aviões em agosto (41 deles 737 MAX), chegando a 418 unidades entre janeiro e agosto — o melhor resultado da fabricante americana nesse período desde 2018. A carteira de pedidos em aberto da Boeing segue enorme: 6.755 aeronaves, das quais 71% são 737 MAX.
| Airbus | Boeing | |
|---|---|---|
| Entregas em agosto/2026 | 57 | 51 |
| Acumulado jan-ago/2026 | 475 | 418 |
| Meta / referência | ~870 no ano (ritmo apertado) | Melhor jan-ago desde 2018 |
💡 INSIGHT VALIOSO Nenhuma das duas fabricantes está "perdendo" de verdade — ambas registram recuperação frente aos anos de gargalo na cadeia de suprimentos. O que muda é o ritmo: a Airbus segue na liderança numérica, mas a Boeing vem fechando a distância mês a mês, algo que não se via com essa consistência desde antes da pandemia.
Pra quem trabalha com manutenção, esse tipo de número não é só estatística de mercado: mais entregas hoje significam mais frota nova entrando em operação — e, lá na frente, mais uma geração de aeronaves batendo na porta das oficinas pra primeira visita de manutenção pesada.
🌱 3. Hoje é o Dia: ANAC Discute ao Vivo o Futuro do SAF no Brasil
E a notícia mais "quente" desta edição está acontecendo hoje mesmo, enquanto você lê este post.
A ANAC promove, nesta sexta-feira (11/9), das 11h às 12h, um fórum online sobre a regulamentação do ProBioQAV — o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, instituído pela Lei do Combustível do Futuro e regulamentado pelo Decreto nº 13.094, de 12 de agosto de 2026.
O programa estabelece metas graduais e obrigatórias de redução de emissões de CO₂ para a aviação doméstica: 1% a partir de 2027, 2% em 2029, subindo 1 ponto percentual por ano a partir de 2030 até chegar a 10% em 2037. O decreto também cria o Certificado de Sustentabilidade do SAF (CS-SAF) — um título negociável separadamente do combustível físico, no modelo conhecido como book & claim, válido por 18 meses. Na prática, isso permite que uma companhia aérea cumpra a meta comprando o "atributo ambiental" do SAF mesmo sem abastecer fisicamente com ele em toda rota. ANP e ANAC têm até 18 de dezembro de 2026 para publicar as normas complementares — e é exatamente esse processo que o fórum de hoje começa a destrinchar.
🚀 DICA RÁPIDA A consulta pública sobre o tema segue aberta até 1º de outubro de 2026, no Portal Brasil Participativo. Quem quiser acompanhar o fórum ao vivo pode assistir pelo canal da ANAC no YouTube e mandar perguntas pelo Slido.
Vale explicar rapidamente o que é SAF pra quem não é do meio: é a sigla para Sustainable Aviation Fuel, o combustível sustentável de aviação, produzido a partir de fontes renováveis (óleo de cozinha usado, resíduos agrícolas, biomassa) em vez do petróleo tradicional. Ele pode ser usado misturado ao QAV convencional, sem exigir modificação nos motores — e é hoje a principal aposta do setor pra reduzir emissões sem esperar por uma nova geração de aeronaves elétricas ou a hidrogênio, que ainda estão longe da escala comercial.
Regulamentar isso bem — com metas realistas e um sistema de monitoramento que funcione de verdade — é o tipo de trabalho que não aparece em manchete grande, mas decide se o Brasil vai conseguir cumprir compromisso de descarbonização sem travar a operação das companhias aéreas.
O Que Fica Dessa Semana
Três notícias, um fio condutor só: custo, ritmo de produção e o futuro do combustível estão todos entrelaçados. Quando o QAV sobe, o setor sente. Quando a produção de aeronaves novas acelera, a manutenção sente daqui a alguns anos. E quando a regulação do SAF avança, é o formato do combustível que todo mundo vai usar que começa a mudar.
Fica a pergunta pra fechar a semana: na sua opinião, o Brasil está no ritmo certo pra fazer essa transição de combustível sem pesar ainda mais no bolso de quem voa?
As opiniões expressas são pessoais e não representam posição oficial da ANAC.
Fontes
- Petrobras reajusta preço médio do querosene de aviação em 13,9% — TNH1
- Querosene de aviação sobe 53% em 2026 após novo reajuste — AeroJota
- Boeing delivers 51 aircraft in August, reaches 418 in 2026 — Air Data News
- Boeing orders slow in August, deliveries edge lower — FlightGlobal
- Airbus deliveries slow to 57 in August, leaving steep climb to 2026 target — Air Data News
- Airbus registered 67 orders and delivered 57 aircraft in August — Aviation24.be
- Decreto nº 13.094, de 12 de agosto de 2026 — Diário Oficial da União / Planalto
- Mercado de Carbono em agosto: decretos sobre SAF, captura de carbono e hidrogênio — Lefosse
- Anac promove fórum sobre regulamentação do ProBioQAV, no dia 11/9 — ANAC
- Anac realiza fórum sobre regulamentação do ProBioQAV no dia 11 de setembro — AEROIN
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