Notícias da Semana #4: A Gol Chega à Europa (de Carona), a Boeing Trava no 737 MAX e o Contador Regressivo Pro MAX 10

Publicado por Alexandre Andrade 19 de set. de 2026 • 8 min de leitura
Notícias da Semana #4: A Gol Chega à Europa (de Carona), a Boeing Trava no 737 MAX e o Contador Regressivo Pro MAX 10

Prometi entregar esse resumo na sexta e furei — mas prefiro atrasar um dia do que deixar passar uma semana com notícia boa. E olha que teve chão: enquanto uma companhia aérea brasileira comemorava a chegada à Europa, do outro lado do Atlântico a maior fabricante de aviões do mundo admitia que sua linha de produção mais importante ainda não anda no ritmo prometido.

Separei as três notícias que mais mexeram com o setor nos últimos dias. Vamos direto ao ponto.


🇵🇹 1. A Gol Pousou na Europa — Com Avião Emprestado, Mas de Olho no Próprio

Começando pelo lado bom da semana, e um marco pra aviação nacional — com um detalhe técnico que vale explicar direito.

Na noite de quarta-feira (16/9), um Airbus A330 decolou de Lisboa às 23h30 rumo ao Rio de Janeiro, com a pintura da Gol estampada na fuselagem. O pouso no Galeão aconteceu na manhã seguinte, às 5h30, depois de cerca de 10 horas de voo — a segunda rota internacional de longo curso da história da companhia (a primeira foi Rio–Nova York, lançada em julho deste ano).

⚠️ ATENÇÃO / DETALHE QUE MUDA A HISTÓRIA Esse A330 (registro EC-MAJ) não é da frota própria da Gol. Ele pertence à espanhola Wamos Air, parceira dentro do Abra Group — o mesmo grupo que controla a Gol. Ou seja: a companhia está operando essa rota em regime de wet-lease (aluga o avião com tripulação, manutenção e seguro inclusos do operador original) enquanto seus próprios A330neo, ainda em processo de entrega, não chegam.

A rota Rio-Lisboa vai operar às segundas, quartas, sextas e sábados, e chega com um produto novo: a classe executiva Insignia, estreando nessa operação de longo curso — com amenities assinadas pelo chef Felipe Bronze. Segundo a companhia, o Galeão hoje responde por mais de 60% da sua capacidade de assentos, e a estratégia é usar o aeroporto carioca como base para expandir também a Paris e Orlando.

💡 INSIGHT VALIOSO Usar wet-lease pra estrear uma rota de longo curso não é fraqueza — é estratégia comum na aviação. Permite testar demanda, treinar processos comerciais e ganhar posição de mercado (slots, marca, clientela) antes mesmo de ter a própria aeronave disponível. A Latam, a British Airways e várias outras já fizeram isso ao abrir mercado novo. O que muda é quem carrega a responsabilidade regulatória e de manutenção da aeronave durante esse período — nesse caso, é a Wamos Air, não a Gol.

Pra quem acompanha manutenção, o dado interessante é justamente esse: quando a Gol assumir seus próprios A330neo, ela vai precisar de uma estrutura de suporte bem diferente de manter uma frota só de 737 — motores diferentes, sistemas hidráulicos e de pressurização de cabine em outra escala, certificações de tripulação e de manutenção específicas para operação widebody de longo curso. É uma frente de manutenção nova se abrindo dentro de casa, só que ainda não hoje.

Airbus A330 widebody em pátio de aeroporto durante o dia Aeronaves widebody como o A330 exigem uma estrutura de manutenção bem diferente da frota estritamente narrowbody que a Gol operava até aqui.


🏭 2. Boeing Admite: Produção do 737 MAX Ainda Não Estabilizou

Trocando de continente — e de humor.

Na terça-feira (16/9), o CEO da Boeing, Kelly Ortberg, declarou publicamente que a estabilização da produção do 737 MAX está demorando mais do que o previsto. A meta da empresa é sustentar um ritmo de 47 aeronaves por mês — mas em agosto a fabricante entregou apenas 41 unidades, abaixo do combinado. Segundo o próprio Ortberg, "ainda não estamos estáveis" nesse patamar.

O gargalo está especificamente na produção de asas em Renton, no estado de Washington: "a área onde estamos travados agora é a produção de asas... simplesmente não vimos as melhorias de fluxo que esperávamos", disse o CEO. A meta seguinte — chegar a 52 aeronaves por mês com a entrada em operação de uma nova linha de montagem em Everett — já é tratada como improvável até o fim de 2026; primeiro a Boeing precisa estabilizar o ritmo atual em Renton, para só depois certificar a linha nova.

⚠️ ATENÇÃO Vale contextualizar: a Boeing já vem de anos tentando reconstruir a confiança do mercado e dos reguladores depois da crise do MAX em 2018-2019. Um novo atraso de produção não é um desastre isolado — é mais um capítulo de uma reconstrução que segue mais lenta do que a própria empresa gostaria.

Pra quem trabalha do lado da manutenção e da cadeia de suprimentos, esse tipo de notícia é termômetro: quando a fábrica não entrega no ritmo esperado, quem sente o efeito na ponta são as companhias aéreas com entregas atrasadas — e, por tabela, toda a operação que dependia daquele avião novo entrando em serviço na data prevista.


📄 3. O MAX 10 Está a Um Passo da Certificação

E ainda em cima da Boeing, mas com uma notícia mais animadora: a certificação do 737 MAX 10 — a versão mais alongada da família, ainda sem aval da FAA para operar comercialmente — está, segundo o próprio Ortberg, "muito próxima".

Em declaração nesta sexta-feira (19/9), na Conferência Morgan Stanley Laguna, o CEO afirmou que restam apenas três itens pendentes — todos ligados à extensa documentação exigida pela FAA, já que os testes de voo foram concluídos em julho. A Agência Europeia de Segurança Aeronáutica (EASA) também avaliou o avião na semana anterior e, nas palavras de Ortberg, ficou "extremamente elogiosa".

O MAX 10 não é só mais uma variante: ele representa mais de 1.400 pedidos em carteira, cerca de 30% do backlog total da Boeing hoje. Mesmo com a certificação batendo à porta, as primeiras entregas comerciais só devem começar em 2027 — a fabricante já começou a montar as primeiras unidades de produção do modelo em Washington, apostando que a certificação sai antes que a linha esteja pronta para escalar.

🚀 DICA RÁPIDA O atraso do MAX 10 desde sua apresentação em 2019 tem uma origem conhecida: exigências regulatórias mais rígidas pós-crise do MAX, somadas a gargalos de cadeia de suprimentos e, mais recentemente, ajustes no sistema anti-gelo do motor. Certificar um avião novo hoje é, literalmente, um processo diferente do que era há sete anos.


O Que Fica Dessa Semana

Duas fabricantes, dois momentos opostos: enquanto a Gol expande fronteira com uma solução inteligente de curto prazo (o wet-lease), a Boeing segue tentando provar que aprendeu a lição da última década — com um pé na comemoração (MAX 10 quase certificado) e outro no aperto de mãos ainda incompleto (produção que não estabiliza). E no meio disso, o Brasil ganha mais uma rota direta para a Europa, mesmo que — por enquanto — de carona.

Fica a reflexão pra fechar: será que o mercado vai continuar dando à Boeing o benefício da dúvida a cada novo atraso, ou existe um limite de paciência aí na frente?

As opiniões expressas são pessoais e não representam posição oficial da ANAC, do CENIPA ou da FAB.


Fontes consultadas


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Alexandre Andrade — Doutrina de Manutenção Aeronáutica & SIPAER

Mais de uma década na Força Aérea Brasileira (FAB). Compartilhando conhecimentos em segurança de voo, fatores humanos e boas práticas de manutenção.