A "Caixa-Preta" Que É Laranja: a História dos Gravadores de Voo, de David Warren e o Comet Até as 25 Horas de Voz

Publicado por Alexandre Andrade 06 de nov. de 2026 • 8 min de leitura
A "Caixa-Preta" Que É Laranja: a História dos Gravadores de Voo, de David Warren e o Comet Até as 25 Horas de Voz

A "caixa-preta" é laranja ou amarela por exigência de regulamento, quase sempre são duas caixas, e a ideia saiu da cabeça de um químico australiano a quem o chefe mandou largar o projeto e voltar ao trabalho de laboratório.

Bora entender de onde vieram os gravadores de voo, o que eles registram, o que aguentam e por que existem.


Primeiro, os nomes: FDR e CVR

  • FDR (Flight Data Recorder, gravador de dados de voo): registra parâmetros do avião, como altitude, velocidade, proa, posição de comandos e dados de motor.
  • CVR (Cockpit Voice Recorder, gravador de voz da cabine): grava o áudio da cabine de comando: conversas da tripulação, rádio e sons do ambiente, como alarmes.

Um conta o que o avião fez; o outro, o que a tripulação ouviu e falou.

A ideia: um químico, um gravador de bolso e o Comet

O personagem principal é o Dr. David Warren, pesquisador do Aeronautical Research Laboratory (ARL), em Melbourne, na Austrália. Segundo o DSTG (Defence Science and Technology Group, sucessor do ARL), em meados dos anos 1950 Warren participou das investigações dos acidentes do de Havilland Comet, o primeiro jato comercial de passageiros (a história do Comet está em O Mito da Janela Quadrada).

O estalo juntou duas coisas: acidentes sem explicação e um gravador em miniatura que ele tinha visto numa feira, o "Minifon". Se um aparelho daqueles estivesse na cabine, haveria registro de tudo o que foi dito até o momento do acidente. Segundo a IEEE Spectrum, em abril de 1954 ele propôs a ideia numa nota técnica de quatro páginas. Ninguém se animou, e Warren construiu por conta própria o protótipo ARL Flight Memory Unit.

Pelo DSTG, o aparelho guardava continuamente até quatro horas de voz, além de leituras de instrumentos. A IEEE Spectrum detalha o resto: gravação num fio de aço magnetizado de 0,05 mm, instrumentos amostrados oito vezes por segundo e gravação em laço, com o dado mais novo substituindo o mais antigo. Esse princípio vale até hoje.

Nota de transparência: as fontes divergem no ano do protótipo: 1956 (Australian Aviation Hall of Fame), 1957 (DSTG) ou 1958 (IEEE Spectrum). Aqui fica "segunda metade dos anos 1950".

A recepção: fria

A IEEE Spectrum, citando um relato de Warren e Ken Fraser, reproduz reações da época. Das autoridades civis: "Dr Warren's instrument has little immediate direct use in civil aircraft" ("o instrumento do Dr. Warren tem pouco uso direto imediato na aviação civil"). Dos pilotos: "no plane would take off in Australia with Big Brother listening" ("nenhum avião decolaria na Austrália com o Big Brother escutando").

A virada veio em 1958, quando Sir Robert Hardingham, do Air Registration Board britânico, viu o protótipo numa visita informal ao ARL e mandou Warren para a Inglaterra fazer uma demonstração. Lá a indústria levou a ideia adiante: segundo a IEEE Spectrum, a S. Davall & Sons fabricou o gravador "red egg" (ovo vermelho) com base no projeto de Warren.

A Austrália sai na frente

Depois de um acidente fatal com um Fokker F27 Friendship em Mackay (Queensland), em 1960, o juiz do inquérito recomendou gravadores nos aviões de linha australianos. Segundo o DSTG, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a tornar obrigatória a gravação de voz na cabine.

Nota de transparência: o ano exato da exigência varia: janeiro de 1963 para dados e voz, segundo a IEEE Spectrum; 1967, segundo o eMelbourne (Universidade de Melbourne). As fontes concordam no pioneirismo australiano.

Warren morreu em 19 de julho de 2010, em Melbourne, aos 85 anos.

Mas foi ele que inventou?

Depende do que se chama de "gravador de voo":

  • França, 1939: François Hussenot e Paul Beaudouin, em Marignane, criaram um registrador de dados de voo em filme fotográfico, sem voz.
  • EUA, anos 1950: James Ryan, professor da Universidade de Minnesota, desenvolveu com a General Mills o VGA Flight Recorder, que riscava os dados numa fita de alumínio (patente pedida em 1953, concedida em 1960).

O diferencial de Warren foi juntar voz e dados num equipamento feito para sobreviver ao acidente. Não dá para cravar um "inventor único": cada um resolveu uma parte do problema.

Então por que "caixa-preta", se ela é laranja?

A cor é a parte fácil. O RBAC 121.359 da ANAC manda que cada caixa de gravador seja "de cor amarela ou laranja brilhante", com fita reflexiva e um localizador subaquático preso a ela ou junto dela. O 14 CFR 121.359 da FAA diz o mesmo. No meio de destroços ou no fundo do mar, laranja aparece.

O nome é a parte difícil: a origem é incerta. Segundo a IEEE Spectrum, o próprio Warren desconfiava que o apelido nasceu nas primeiras entrevistas à imprensa britânica, porque "black box" era gíria da RAF para equipamento eletrônico. Não achamos fonte que feche a questão.


O que eles gravam hoje

FDR

Segundo o NTSB (National Transportation Safety Board, órgão de investigação dos EUA), aviões fabricados hoje precisam monitorar pelo menos 88 parâmetros, e o FDR grava em laço as últimas 25 horas. Os 88 parâmetros vêm do 14 CFR 121.344, para aviões categoria transporte a turbina fabricados depois de 19/08/2002.

CVR: de 30 minutos para 2 horas, e agora 25

O CVR começou com 30 minutos de fita; os de memória de estado sólido passaram a guardar 2 horas. Agora:

  • A ICAO adotou em 2016 a norma de CVR de 25 horas para aviões de transporte comercial com mais de 27.000 kg fabricados depois de 1º/01/2021. A EASA exige o mesmo.
  • A FAA publicou em 02/02/2026 a regra final que leva o CVR de 2 para 25 horas em aviões novos, com prazos por tipo de operação.

Por que 25 horas? A FAA cita o caso que gerou a recomendação A-18-030 do NTSB: em julho de 2017, em San Francisco, um A320 da Air Canada autorizado a pousar se alinhou com a pista de táxi paralela e passou baixo sobre aviões que estavam nela. Ninguém se feriu, mas, quando a gravidade ficou clara, o CVR já tinha gravado por cima da aproximação. A investigação ficou sem as conversas para analisar decisão, carga de trabalho e CRM.

No Brasil, o RBAC 121 vigente (Emenda 25) ainda pede que o CVR retenha pelo menos as 2 últimas horas.

O "pinger"

Na frente de cada gravador vai o ULB/ULD (Underwater Locator Beacon/Device, localizador subaquático). Em contato com a água, ele emite um sinal acústico de 37,5 kHz, que segundo o NTSB pode ser captado de até 14.000 pés de profundidade (cerca de 4.300 m). A bateria cresceu: com a TSO-C121b, a FAA elevou a vida mínima de 30 para 90 dias, e a EASA exige 90 dias desde 2018.

Dr. David Warren com o primeiro protótipo do gravador. Foto: Departamento de Defesa da Austrália (DSTO) / Wikimedia Commons, domínio público


O que ele aguenta, e onde fica

A memória fica numa unidade blindada, a CSMU (Crash Survivable Memory Unit). Pela página do NTSB:

TesteValor de referência (NTSB)
Impacto3.400 G por 6,5 milissegundos
Fogo1.100 °C por 30 minutos
Pressão da águasubmerso a 20.000 pés (cerca de 6.100 m)

E a localização: os dois ficam na parte do avião com maior chance de sobreviver ao acidente, normalmente a cauda, diz o NTSB. "Normalmente" porque depende do projeto de cada aeronave.

E no Brasil, quem lê os gravadores?

O LABDATA (Laboratório de Leitura e Análise de Dados de Gravadores de Voo), na sede do CENIPA, em Brasília. Segundo o SBT News (agosto de 2024), só Brasil e Austrália têm, no hemisfério sul, laboratórios com essa capacidade. Foi lá que se leram os gravadores do ATR 72 da Voepass, assunto de Relatório Final do CENIPA Sobre a Voepass 2283. Sobre o peso do CENIPA lá fora, veja CENIPA e a Nota 100 da ICAO.


O olhar de quem trabalha com investigação: dado para prevenir, não para culpar

O medo dos pilotos dos anos 1950, o "Big Brother escutando", não era bobagem: a gravação de cabine é a coisa mais íntima de uma tripulação. A resposta foi proteger o uso desse dado.

No Brasil, o Código Brasileiro de Aeronáutica (com a redação da Lei 12.970/2014) diz, no art. 86-A, que a investigação SIPAER "tem por objetivo único a prevenção de outros acidentes e incidentes por meio da identificação dos fatores que tenham contribuído". O art. 88-I põe as gravações da cabine e os dados dos gravadores entre as fontes SIPAER, com "garantia legal de seu exclusivo uso para fins de prevenção".

Para quem é do hangar, a lição é a de San Francisco: o gravador só ajuda se o dado estiver lá. Gravador inoperante ou CVR não preservado depois de um evento deixam a investigação sem a prova que ensinaria alguma coisa ao próximo.


Conclusão

De um fio de aço com quatro horas de voz numa bancada de Melbourne a uma caixa laranja que aguenta 3.400 G e grava 25 horas, o gravador mudou porque a aviação aprendeu que, sem dado, investigação vira palpite. E ele existe por um motivo: prevenir o próximo acidente.

E aí, colega: na sua operação, alguém sabe dizer qual é o procedimento para preservar o CVR depois de um incidente sério, antes que a gravação seja apagada?

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As opiniões expressas são pessoais e não representam posição oficial da ANAC, do CENIPA ou da FAB.


Referências

  1. DSTG (Departamento de Defesa da Austrália) — Black box flight recorder: https://www.dst.defence.gov.au/node/74
  2. DSTG — David Warren, inventor of the black box flight recorder: https://www.dst.defence.gov.au/node/236
  3. IEEE Spectrum — The Inventor of the Black Box Was Told to Drop the Idea and Get On With Blowing Up Fuel Tanks (Allison Marsh, 18/06/2021): https://spectrum.ieee.org/the-inventor-of-the-black-box-was-told-to-drop-the-idea-and-get-on-with-blowing-up-fuel-tanks
  4. Australian Aviation Hall of Fame — Dr David de Mey Warren: https://www.aahof.com.au/inductees/Dr-David-de-Mey-Warren
  5. eMelbourne (Universidade de Melbourne) — Black box flight recorder: https://www.emelbourne.net.au/biogs/EM00197b.htm
  6. ETHW (IEEE History Center) — Flight Data Recorder: https://ethw.org/Flight_Data_Recorder
  7. NTSB — Cockpit Voice Recorders (CVR) and Flight Data Recorders (FDR): https://www.ntsb.gov/news/Pages/cvr_fdr.aspx
  8. Cornell LII (texto do eCFR) — 14 CFR §121.344: https://www.law.cornell.edu/cfr/text/14/121.344
  9. Cornell LII (texto do eCFR) — 14 CFR §121.359: https://www.law.cornell.edu/cfr/text/14/121.359
  10. FAA / Federal Register — 25-Hour Cockpit Voice Recorder (CVR) Requirement, New Aircraft Production (2026-02110): https://public-inspection.federalregister.gov/2026-02110.pdf
  11. NBAA — FAA Publishes Final Rule on 25-Hour CVR Installations in New Aircraft (04/02/2026): https://nbaa.org/aircraft-operations/communications-navigation-surveillance-cns/cockpit-voice-recorders-flight-data-recorders/faa-publishes-final-rule-on-25-hour-cvr-installations-in-new-aircraft/
  12. FAA / Federal Register — Revocation of TSO-C121 and TSO-C121a (05/03/2012): https://www.govinfo.gov/content/pkg/FR-2012-03-05/html/2012-5213.htm
  13. EASA — New regulation, new timings: https://www.easa.europa.eu/newsroom-and-events/news/new-regulation-new-timings
  14. ANAC — RBAC 121 (Emenda 25): https://www.anac.gov.br/assuntos/legislacao/legislacao-1/rbha-e-rbac/rbac/rbac-121
  15. Planalto — Lei nº 12.970/2014 (altera o Código Brasileiro de Aeronáutica): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12970.htm
  16. SBT News — Conheça o laboratório que vai analisar caixa-preta do acidente em Vinhedo (15/08/2024): https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/brasil/conheca-o-laboratorio-que-vai-analisar-caixa-preta-do-acidente-em-vinhedo-sp

Alexandre Andrade — Doutrina de Manutenção Aeronáutica & SIPAER

Mais de uma década na Força Aérea Brasileira (FAB). Compartilhando conhecimentos em segurança de voo, fatores humanos e boas práticas de manutenção.