F-5 Tiger II: o Plano B Que Virou Lenda na FAB (e Que Ainda Não Consegue se Aposentar)

Publicado por Alexandre Andrade 15 de out. de 2026 • 8 min de leitura
F-5 Tiger II: o Plano B Que Virou Lenda na FAB (e Que Ainda Não Consegue se Aposentar)

3 de junho de 1982. A Guerra das Malvinas/Falklands acontece a poucos milhares de quilômetros do Brasil. Um bombardeiro britânico Avro Vulcan, armado, volta de uma missão sobre as ilhas e não consegue se reabastecer em voo. Sem condições de chegar à Ilha de Ascensão, ele alterna para o Rio de Janeiro.

Quem sobe para recebê-lo? Dois caças F-5E Tiger II do 1º Grupo de Aviação de Caça, decolando da Base Aérea de Santa Cruz. O Vulcan declara emergência, é guiado até o Galeão e pousa. Depois de negociações, os britânicos recuperam o avião, desarmado.

Uma interceptação que virou escolta. E o mais curioso: o F-5 nem era a primeira escolha da FAB. 👇


🐯 O Plano B (Que Ninguém Planejou Amar)

A Northrop pensou o F-5 como um caça pequeno, barato e de dois motores, ideal para aliados dos EUA que não podiam pagar os jatos de ponta. A versão que a FAB compraria, o F-5E Tiger II, venceu em 1970 uma competição americana para achar um rival do MiG-21 e voou pela primeira vez em 1972.

Só que a preferência da FAB era outra: o McDonnell Douglas F-4 Phantom. Os Estados Unidos vetaram a venda, e o F-5 acabou sendo o modelo aceito, via FMS (vendas militares do governo americano ao exterior).

Em outubro de 1974, o Brasil fechou a encomenda: 42 caças (36 F-5E monopostos e 6 F-5B de instrução), por cerca de US$ 72 milhões.

💡 INSIGHT VALIOSO O Tiger II nunca foi o caça mais sofisticado do mundo. Era simples, versátil e confiável, com dois motores GE J85 com pós-combustão, dois canhões de 20 mm e mísseis Sidewinder. Essa simplicidade explica, em parte, por que ele durou tanto.


✈️ A Travessia: 6.200 Milhas Até Casa

O recebimento dos primeiros aviões aconteceu em Palmdale, na Califórnia, em 28 de fevereiro de 1975. A travessia, batizada de Operação Tigre, teve seu primeiro voo de traslado em 6 de março, com três F-5B.

Eles percorreram cerca de 6.200 milhas náuticas, somando mais de 12 horas e meia de voo, com o primeiro pouso em território brasileiro na Base Aérea de Belém. A chegada ao Galeão (Rio de Janeiro) foi em 13 de março de 1975.

Linha do tempo do F-5 na FAB: de 1974 a 2029


📦 Os Três Lotes de F-5

A FAB perdeu aviões ao longo dos anos e precisou repor a frota. O resultado foram três "levas" de F-5:

LoteAnoOrigemAeronaves
1º1975Novos de fábrica (Northrop)42 (36 F-5E + 6 F-5B)
2º1988Ex-"agressores" da USAF26 (22 F-5E + 4 F-5F)
3º2008Força Aérea Real da Jordânia11

Os "agressores" eram jatos que a Força Aérea dos EUA usava para simular o inimigo em treinamentos de combate. Parte deles foi para o Esquadrão Pampa, em Canoas (RS).

🕵️ CURIOSIDADE Segundo relatos da imprensa especializada, a FAB chegou a enviar pilotos à China, em 1986, para avaliar o F-7M (uma versão chinesa do MiG-21). Pouco depois, os EUA ofereceram seus F-5 usados ao Brasil.


🔧 Do F-5 ao F-5M: o Caça Que Aprendeu Truques Novos

Em 2000, a FAB contratou a Embraer (com a AEL Sistemas, ligada à israelense Elbit) para modernizar a frota, no programa F-5BR. O primeiro F-5EM voltou à frota em setembro de 2005. O último dos 49 aviões modernizados foi entregue em 14 de outubro de 2020, com a promessa de cerca de 15 anos extras de vida útil.

Os pilotos apelidaram a versão modernizada de "Mike" (de F-5M). O que mudou, em resumo:

ItemAntes (F-5E)Depois (F-5EM/FM)
RadarEmerson AN/APQ-157Grifo F-BR, multimodo
CabineAnalógicaHOTAS, HUD, telas multifuncionais e capacete com mira (HMD)
MísseisSidewinderTambém Python 4 e Derby (este, além do alcance visual)
Canhões2 de 20 mm1 de 20 mm

⚠️ ATENÇÃO HOTAS significa ter os comandos principais no manche e no manete, sem tirar as mãos dos controles. BVR (além do alcance visual) é abater alvos antes mesmo de enxergá-los. O F-5M ganhou os dois, e perdeu um canhão no processo.


🛠️ Visão de Hangar: Como Manter um Caça de 50 Anos Voando

Segundo a FAB, o F-5 já passou de 300 mil horas de voo. Isso só é possível com revisões pesadas e muita logística.

E a logística pode ser o elo mais frágil. Segundo a imprensa especializada, quando o fornecedor do concentrador de oxigênio do sistema OBOGS (que gera o oxigênio respirável a bordo) deixou de atender a FAB, no início de 2020, a Força planejou contratar outra empresa para recuperar o equipamento, com custo estimado em cerca de US$ 280 mil para 10 unidades.

É um avião que conheço de perto: parte da minha trajetória técnica na FAB passou pelo F-5. E a lição que fica é conhecida de quem trabalha em manutenção: modernizar a aviônica é a parte fácil. Manter a cadeia de peças viva por décadas é o verdadeiro desafio.


⏳ E Agora? O F-5 Espera o Sucessor

O substituto é o Saab F-39 Gripen. Só que ele chega devagar: dos 36 contratados, só 10 tinham sido entregues, segundo documentos oficiais citados pela imprensa em 2026 (algumas fontes contam 11), e o último está previsto para 2032.

Enquanto isso, o F-5M segue de prontidão. O 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis, já trocou o F-5 pelo Gripen, e esquadrões como o Pampa (Canoas) e o Jambock (Santa Cruz) seguem com o F-5. A previsão de baixa divulgada pela FAB é 2029. Segundo a Revista Sociedade Militar, que cita o DefesaNet, a Força discutiu internamente em maio de 2026 desativar um dos esquadrões. Era uma discussão, não uma decisão.


🏁 Conclusão

O F-5 chegou como segunda opção, escoltou um bombardeiro britânico de longo alcance até o Rio e atravessou três lotes, uma modernização e cinquenta anos de pilotos. Poucos aviões "reserva" tiveram uma carreira assim.

💬 E você? Qual foi o seu primeiro contato com um F-5, num show aéreo, numa base ou numa foto? E, na sua opinião, um caça deve se aposentar quando envelhece ou quando o sucessor finalmente chega?

Quer ler outras histórias de aviões que marcaram a aviação brasileira? Passe pelo post sobre o Bandeirante e, para treinar o olho em silhuetas de caças, tente o Olho de Spotter.

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As opiniões expressas são pessoais e não representam posição oficial da Força Aérea Brasileira.


📚 Fontes

Alexandre Andrade — Doutrina de Manutenção Aeronáutica & SIPAER

Mais de uma década na Força Aérea Brasileira (FAB). Compartilhando conhecimentos em segurança de voo, fatores humanos e boas práticas de manutenção.