3 de junho de 1982. A Guerra das Malvinas/Falklands acontece a poucos milhares de quilômetros do Brasil. Um bombardeiro britânico Avro Vulcan, armado, volta de uma missão sobre as ilhas e não consegue se reabastecer em voo. Sem condições de chegar à Ilha de Ascensão, ele alterna para o Rio de Janeiro.
Quem sobe para recebê-lo? Dois caças F-5E Tiger II do 1º Grupo de Aviação de Caça, decolando da Base Aérea de Santa Cruz. O Vulcan declara emergência, é guiado até o Galeão e pousa. Depois de negociações, os britânicos recuperam o avião, desarmado.
Uma interceptação que virou escolta. E o mais curioso: o F-5 nem era a primeira escolha da FAB. 👇
🐯 O Plano B (Que Ninguém Planejou Amar)
A Northrop pensou o F-5 como um caça pequeno, barato e de dois motores, ideal para aliados dos EUA que não podiam pagar os jatos de ponta. A versão que a FAB compraria, o F-5E Tiger II, venceu em 1970 uma competição americana para achar um rival do MiG-21 e voou pela primeira vez em 1972.
Só que a preferência da FAB era outra: o McDonnell Douglas F-4 Phantom. Os Estados Unidos vetaram a venda, e o F-5 acabou sendo o modelo aceito, via FMS (vendas militares do governo americano ao exterior).
Em outubro de 1974, o Brasil fechou a encomenda: 42 caças (36 F-5E monopostos e 6 F-5B de instrução), por cerca de US$ 72 milhões.
💡 INSIGHT VALIOSO O Tiger II nunca foi o caça mais sofisticado do mundo. Era simples, versátil e confiável, com dois motores GE J85 com pós-combustão, dois canhões de 20 mm e mísseis Sidewinder. Essa simplicidade explica, em parte, por que ele durou tanto.
✈️ A Travessia: 6.200 Milhas Até Casa
O recebimento dos primeiros aviões aconteceu em Palmdale, na Califórnia, em 28 de fevereiro de 1975. A travessia, batizada de Operação Tigre, teve seu primeiro voo de traslado em 6 de março, com três F-5B.
Eles percorreram cerca de 6.200 milhas náuticas, somando mais de 12 horas e meia de voo, com o primeiro pouso em território brasileiro na Base Aérea de Belém. A chegada ao Galeão (Rio de Janeiro) foi em 13 de março de 1975.

📦 Os Três Lotes de F-5
A FAB perdeu aviões ao longo dos anos e precisou repor a frota. O resultado foram três "levas" de F-5:
| Lote | Ano | Origem | Aeronaves |
|---|---|---|---|
| 1º | 1975 | Novos de fábrica (Northrop) | 42 (36 F-5E + 6 F-5B) |
| 2º | 1988 | Ex-"agressores" da USAF | 26 (22 F-5E + 4 F-5F) |
| 3º | 2008 | Força Aérea Real da Jordânia | 11 |
Os "agressores" eram jatos que a Força Aérea dos EUA usava para simular o inimigo em treinamentos de combate. Parte deles foi para o Esquadrão Pampa, em Canoas (RS).
🕵️ CURIOSIDADE Segundo relatos da imprensa especializada, a FAB chegou a enviar pilotos à China, em 1986, para avaliar o F-7M (uma versão chinesa do MiG-21). Pouco depois, os EUA ofereceram seus F-5 usados ao Brasil.
🔧 Do F-5 ao F-5M: o Caça Que Aprendeu Truques Novos
Em 2000, a FAB contratou a Embraer (com a AEL Sistemas, ligada à israelense Elbit) para modernizar a frota, no programa F-5BR. O primeiro F-5EM voltou à frota em setembro de 2005. O último dos 49 aviões modernizados foi entregue em 14 de outubro de 2020, com a promessa de cerca de 15 anos extras de vida útil.
Os pilotos apelidaram a versão modernizada de "Mike" (de F-5M). O que mudou, em resumo:
| Item | Antes (F-5E) | Depois (F-5EM/FM) |
|---|---|---|
| Radar | Emerson AN/APQ-157 | Grifo F-BR, multimodo |
| Cabine | Analógica | HOTAS, HUD, telas multifuncionais e capacete com mira (HMD) |
| Mísseis | Sidewinder | Também Python 4 e Derby (este, além do alcance visual) |
| Canhões | 2 de 20 mm | 1 de 20 mm |
⚠️ ATENÇÃO HOTAS significa ter os comandos principais no manche e no manete, sem tirar as mãos dos controles. BVR (além do alcance visual) é abater alvos antes mesmo de enxergá-los. O F-5M ganhou os dois, e perdeu um canhão no processo.
🛠️ Visão de Hangar: Como Manter um Caça de 50 Anos Voando
Segundo a FAB, o F-5 já passou de 300 mil horas de voo. Isso só é possível com revisões pesadas e muita logística.
E a logística pode ser o elo mais frágil. Segundo a imprensa especializada, quando o fornecedor do concentrador de oxigênio do sistema OBOGS (que gera o oxigênio respirável a bordo) deixou de atender a FAB, no início de 2020, a Força planejou contratar outra empresa para recuperar o equipamento, com custo estimado em cerca de US$ 280 mil para 10 unidades.
É um avião que conheço de perto: parte da minha trajetória técnica na FAB passou pelo F-5. E a lição que fica é conhecida de quem trabalha em manutenção: modernizar a aviônica é a parte fácil. Manter a cadeia de peças viva por décadas é o verdadeiro desafio.
⏳ E Agora? O F-5 Espera o Sucessor
O substituto é o Saab F-39 Gripen. Só que ele chega devagar: dos 36 contratados, só 10 tinham sido entregues, segundo documentos oficiais citados pela imprensa em 2026 (algumas fontes contam 11), e o último está previsto para 2032.
Enquanto isso, o F-5M segue de prontidão. O 1º Grupo de Defesa Aérea, em Anápolis, já trocou o F-5 pelo Gripen, e esquadrões como o Pampa (Canoas) e o Jambock (Santa Cruz) seguem com o F-5. A previsão de baixa divulgada pela FAB é 2029. Segundo a Revista Sociedade Militar, que cita o DefesaNet, a Força discutiu internamente em maio de 2026 desativar um dos esquadrões. Era uma discussão, não uma decisão.
🏁 Conclusão
O F-5 chegou como segunda opção, escoltou um bombardeiro britânico de longo alcance até o Rio e atravessou três lotes, uma modernização e cinquenta anos de pilotos. Poucos aviões "reserva" tiveram uma carreira assim.
💬 E você? Qual foi o seu primeiro contato com um F-5, num show aéreo, numa base ou numa foto? E, na sua opinião, um caça deve se aposentar quando envelhece ou quando o sucessor finalmente chega?
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As opiniões expressas são pessoais e não representam posição oficial da Força Aérea Brasileira.
📚 Fontes
- FAB (Agência Força Aérea): F-5: 50 anos defendendo a soberania do espaço aéreo brasileiro
- AIRWAY: FAB celebra os 50 anos de operação do Northrop F-5 Tiger II
- Revista Sociedade Militar: A FAB comprou o caça F-5 em 1974 e ainda precisa dele
- Poder Aéreo: 50 anos do caça Northrop F-5 na Força Aérea Brasileira
- AEROIN: Pilotos de caça e controlador contam como foi interceptar o Vulcan sobre a costa do Rio de Janeiro em 1982
- O Povo: Brasil montou rede de espiões na Argentina na Guerra das Malvinas
- Defesa Aérea & Naval (reproduz matéria do Estadão): Vídeo com os bombardeiros Tu-160 sobre a Colômbia
- Autoentusiastas: O Vulcan ainda voa
- Jornal Opção: Brasil já recebeu 10 dos 36 caças F-39 Gripen
- Scramble: Brazilian Air Force receives last upgraded former Jordanian F-5FM
- The War Zone: Brazil's Upgraded Tiger IIs Might Be The Most Capable F-5s In The World
- Aero Data News: Brazil's modernized F-5 fighter jets will need repairs to the oxygen generation system
- Aero Data News: After two decades, Brazil completes F-5 Tiger II fighter modernization program
- Velho General (Leandro Dantas): Um cinquentão com tudo em cima (2022), usado apenas para o episódio do F-7M
- Migflug: Northrop F-5 Freedom Fighter / Tiger II
